Habito os dez mil e quinhentos universos / sugeridos pela física quântica / satisfeita de ser / tantas em tantos. Com essas palavras a poeta Diva Cunha estampa o convite para o lançamento do seu quinto livro de poesia, intitulado “Resina”, que acontece na próxima quinta-feira, dia três durante o 13º Seminário Nacional Mulher & Literatura e o 4º Seminário Internacional Mulher e Literatura, no hotel Praia Mar.
O evento que acontece nos dias 2, 3 e 4 de setembro, já é um sucesso: são mais de mil inscritos de norte a sul do Brasil e de outros países, como Estados Unidos e Portugal. O seminário terá a participação de renomadas conferencistas: Carole Boyce Davies, Constância Lima Duarte e Susan Stanford Friedman. O seminário chega a Natal pela segunda vez. A primeira foi há 16 anos e contou com a presença de Rachel de Queiroz, que lançou, na ocasião, o Memorial de Maria Moura.
Está é a primeira vez em que será homenageada uma escritora natalense, a poetisa Diva Cunha. Segundo Conceição Flores, coordenadora do evento, “Diva Cunha foi escolhida por sua poesia revelar a alma feminina e amor à terra Natal”. A ensaísta e escritora Diva Cunha conversou com O JORNAL DE HOJE.
O JORNAL DE HOJE – Como surgiu a idéia de lançar o livro “Resina” durante o 13° Seminário Mulher & Literatura e o 4º Seminário Internacional Mulher e Literatura?
Diva Cunha – Na realidade a idéia nasceu há cerca de um ano, no momento que a organização do evento entrou em contato comigo com o intuito de comunicar que este ano seriam homenageadas duas escritoras de língua portuguesa, eu e a portuguesa Maria Tereza Horta, ensaísta, ficcionista e também poetisa. Fiquei muito emocionada e honrada. E, pensei em que seria uma linda ocasião para lançar um livro, já que o último publicado foi em 2004.
O JORNAL DE HOJE – O livro “Resina” já estava pronto. No ponto de ser publicado?
Diva Cunha – Não, de jeito nenhum. Tive que construí-lo a partir daí. Comecei a procurar os meus escritos, pesquisar nos meus inúmeros papéis, enfim, destrinchar todos os meus guardados para encontrar os poemas que algum dia escrevi e que ainda se encontravam inéditos. Depois, de encontrá-los. Selecionei os que entrariam neste livro, em seguida fui digitalizá-las e assim, começar a trabalhar em cima de cada poesia.
O JORNAL DE HOJE – O que levou a senhora escolher o nome “Resina” para o livro?
Diva Cunha – Tirei de um poema que escrevi. Achei que era uma palavra plástica e bela. Na realidade, me encantei por esta palavra e acreditei na hora que poderia ser um título ideal para um livro de poesia. E, porque não para este.
O JORNAL DE HOJE – Então, este livro é uma coletânea de poemas. Fale um pouco sobre “Resina”?
Diva Cunha – Bem, o livro tem mais de 80 poemas inéditos e é dividido em duas partes. A primeira chamada de ‘Resina’, onde reúno poemas de diversos temas, como a questão da mulher; as coisas do dia-dia; minha paisagem Natal; personagens do meu cotidiano, entre outros. E, na outra, que intitulei como ‘Travo’ é mais especifica, nesta parte eu falo da minha relação com meus mestres de poesias. Os sentimentos são os mais diversos, podem ser de amor, de inveja, de admiração...
O JORNAL DE HOJE – Quando a senhora falou “começar a trabalhar em cima de cada poesia”, como é esse processo?
Diva Cunha – A poesia não é só inspiração. Existe todo um trabalho de linguagem poética propriamente dita em relação com a feitura do poema. É uma briga danada esta etapa. Como disse um dia, João Cabral Neto, “na feitura de um poema 5% é de inspiração e 95 % de trabalho”. O processo é simples, primeiro você tem aquela emoção inicial que desencadeia a poesia, que desperta uma emoção. Depois, você tem que trabalhar. E, o que é trabalhar? É escrever, acrescentar, cortar, bem, na maioria das vezes, é cortar os excessos. A poesia não é só rimar. Hoje todo mundo rima. Mas, nem todo mundo faz poesia.
O JORNAL DE HOJE – Uma das características da suas poesias é a rima?
Diva Cunha – Sim, eu rimo muito nas minhas poesias. Mas, o importante é saber captar o belo.
O JORNAL DE HOJE – Além de poeta, a senhora é pesquisadora e professora de literatura?
Diva Cunha – Isso mesmo. Sou professora aposentada de Literatura Portuguesa da UFRN e atualmente faço parte do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte. Há alguns anos venho realizando pesquisas na área de Mulher & Literatura, publiquei, em parceria com Constância Lima Duarte, os livros: “Iniciação à poesia do Rio Grande do Norte” (1999), “Literatura feminina do Rio Grande do Norte: de Nísia Floresta a Zila Mamede” (2000), “Literatura do Rio Grande do Norte – Antologia” (2002) e “Via-Láctea de Palmira e Carolina Wanderley” (2003). E, atualmente, estou desenvolvendo a minha tese de doutorado a ser defendida na Universidade de Barcelona (Espanha).
O JORNAL DE HOJE – “Resina” é o seu quinto livro de poesia?
Diva Cunha – Sim é o quinto livro de poesia que publico. O primeiro livro de poesia, “Canto de página”, foi lançado em 1986. “A palavra estampada” foi em 1993. Dez anos depois publiquei “Coração de lata” (1996) e o último foi em 2004, intitulado “Armadilha de vidro”.
O JORNAL DE HOJE – Quais são as suas maiores fontes de inspiração?
Diva Cunha – O meu dia-dia, o universo feminino e Natal. Sou apaixonada pela minha cidade. E, a admiração que tenho pelos poetas e escritores do Rio Grande do Norte, como Auta de Souza, Palmira Wanderley, Otoniel Menezes, entre outros.
O JORNAL DE HOJE – O Rio Grande do Norte é celeiro de grandes escritoras?
Diva Cunha – Com certeza. A literatura no Rio Grande do Norte é marcada pelo signo feminino que começa com a grande Nísia Floresta.
O JORNAL DE HOJE – Movimento este que cresce a cada dia. O que comprova essa afirmação é a quantidade de lançamentos literários que acontece na cidade?
Diva Cunha – É, verdade! Aqui no nosso estado há um grupo de mulheres escrevendo com seriedade e dedicação. E, esse é o caminho. Há grandes poemas. Poetas podem de repente não escrever coisas nem tão boas. Mas, o que fica é a poesia. O prazer é o que fica. Porque nós os poetas somos efêmeros. E, que saber? Acho uma maravilha esse número crescente de lançamentos de livros. Sobre a qualidade? Bem, deixa o tempo julgar. O que importa é essa efervescência cultural.