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10.02.2010

Poema "Os filhos da Paixão", de Pedro Tierra

O poema abaixo foi utilizado em cartaz de campanha do, na época, vereador Fernando Mineiro.

 

Os filhos da Paixão, de Pedro Tierra

 

Nascemos num campo de futebol

Haverá berço melhor para dar á luz uma estrela?

Aprendemos que os donos do país só nos ouviam

quando cessava o rumor da última máquina...

Quando cantava o arame cortado da última cerca...

Carregávamos no peito, cada um, batalhas incontáveis.

Somos a perigosa memória das lutas

Projetamos a perigosa imagem do sonho

Nada causa mais horror à ordem

do que homens e mulheres que sonham.

Nós sonhamos. E organizamos o sonho.

Nascemos negros, nordestinos, nisseis, índios,

mulheres, mulatas, meninas de todas as cores,

filhos, netos de italianos, alemães, árabes, judeus,

portugueses, espanhóis, poloneses, tantos...

Nascemos assim desiguais, como todos os sonhos humanos.

Fomos batizados na pia, na água dos rios, nos terreiros

Fomos, ao nascer, condenados

a amar a diferença.

A amar os diferentes.

Viemos da margem.

Somos a anti-sinfonia

que estorna da estreita pautada melodia.

Não cabemos dentro da moldura...

Somos dilacerados como todos os filhos da paixão.

Briguentos. Desaforados. Unidos. Livres:

como meninos de rua.

Quando o inimigo não fustiga,

inventamos nossas próprias guerras.

Desenvolvemos um talento prodigioso para elas...

Com nossas mãos, sonhos, desavenças

compomos um rosto de peão,

uma voz rouca de peão,

o desassombro dos peões

para oferecer aos país,

para disputar o país.

Por sua boca dissemos, na fábrica, nos estádios, nas praças

que este país não tem mais donos.

Em 84 viramos multidão, inundamos as ruas.

Somamos nosso grito ao grito de todos. Depois,

gritamos sozinhos

E choramos a derrota sob nossas bandeiras.

Dos ventos que desatamos

88: Como aprender a governar e desenhar

em cada passo, em cada gesto, a cada dia

a vida nova que nossa boca anunciou?

89: encarnamos a tempestade. Assombrados pela Vertigem,

venceu a solidez da mentira, do preconceito.

Três anos depois pintamos a cara, com tantos,

e fomos o arco-íris e a indignação.

Dessa vez a fortaleza ruiu diante de nossos olhos.

E só havia ratos depois dos muros.

A fortaleza agora está vazia. Ou povoada de fantasmas.

O caminho que conduz a ela passa por muitos lugares:

caravanas.

Pelas estradas empoeiradas,

pela esperança empoeirada do povo,

pelos mandacarus e juazeiros,

pelos seringais, pelas águas da Amazônia,

pelos parreiras, pelos pampas, pelos cerrados

e pelos babaçuais, mas sobretudo

pela invencível alegria

que o rosto castigado da gente

demonstra à sua passagem.

A revolução que acalentamos na juventude faltou.

A vida, não. A vida não falta.

E não há nada mais revolucionário que a vida.

Fixa suas próprias regras. Marca a hora

e se opõe diante de nós, incontornável

Os filhos da margem têm os olhos postos sobre nós.

Eles sabem, nós sabemos que a vida

não concederá uma terceira oportunidade.

Hoje, temos uma cara. Uma voz. Bandeiras.

Temos sonhos organizados.

Queremos um país onde não se matem as crianças

que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro.

Onde os filhos da margem tenham direito à terra,

ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,

às histórias que povoam nossa imaginação,

às raízes da nossa alegria.

Aprendemos que a construção do Brasil

não será obra apenas de nossas mãos.

Nosso retrato futuro resultará

da desencontrada multiplicação

dos sonhos que desatamos.

 

(extraído do Caderno das Resoluções do II Congresso Nacional do PT)

Tags: noticias do mandato, PT Nacional, PT/RN

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