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23.03.2009
De acordo com Manoel Lucas, cerca de 50% da água produzida em Natal é desperdiçada antes de chegar ao consumidor. Ele explica que as redes de abastecimento de água sofrem perdas de natureza física e não-física. O desperdício seria a diferença entre toda a água que é produzida, ou seja, retirada da fonte - chamada de macro-medida - e toda a água que é consumida, que passa pelo hidrômetro individual - a chamada micro-medida.
O primeiro tipo de perda pode ser causado por problemas de ordem administrativa ou de operacionalidade da rede. ‘‘Sempre se perde alguma quantidade de água para operar a rede, como para fazer a limpeza do sistema, por exemplo. O Japão é o país que menos desperdiça água no mundo e mesmo assim esse percentual chega a 18%. Mas a perda também pode acontecer porque a rede é antiga, mal dimensionada ou tem operação irregular’’, explica.
Já as perdas não-físicas, explica, seriam aquelas em que a água produzida chega a um destino, mas essa quantidade não é computada por um hidrômetro. É o caso das ligações clandestinas ou de ligações para praças públicas e outras peças de embelezamento da cidade, que antigamente não precisavam pagar por essa água.
O professor afirma que em Natal falta um controle sobre a rede. A rede em Natal é muito antiga. Foram construídas redes sobre redes e não se tem um controle sobre isso. Já aconteceu de vazar água no entorno do Machadão e a Caern chegar ao ponto de fechar a água do bairro inteiro porque não conseguia encontrar onde estava o vazamento.
Os vazamentos seriam os grandes vilões do desperdício. A rede seria feita de material envelhecido, que quebra e rompe com facilidade. Aliado a isso, o solo de Natal, formado de areia e muito permeável faria com que os vazamentos passem desapercebidos. Quando estoura a rede, antes de se perceber que há o vazamento, podem se passar dias ou até meses para que isso seja detectado. Se a água aflorar tudo bem, mas em se tratando de asfalto isso não vai ocorrer e essa água some.
Entretanto, substituir a rede não seria tarefa fácil. ‘‘Se começarem hoje a reparar toda a rede de Natal, não se fará isso em menos de quatro anos, podendo chegar a oito até’’, disse Manoel Lucas. O motivo, segundo Manoel Lucas, é que não se pode interditar muitas ruas ao mesmo tempo. ‘‘Ou acontece o que estamos vendo agora em alguns bairros da cidade. Substituir toda rede custará tempo e dinheiro e político nenhum se arrisca a fazer isso. O que a Caern faz são remendos e mitigações do problema’’, aponta.
Reuso é um projeto esquecido no RN
‘‘Toda cidade tem água residuária que inferniza a vida das pessoas e que poderia ser economicamente aproveitada’’, afirma o professor Manoel Lucas, que explica que a água residuária é proveniente de esgoto sanitário e passa por um processo de tratamento qualificado, onde ocorre sua desinfecção. Apesar de limpa, ela não serve para o consumo humano. ‘‘Qualquer água pode ser tratada de forma que se torne novamente potável, mas o custo disso é muito alto. O melhor é dar a destinação certa a cada tipo de água’’.
Manoel Lucas explica que pelo mesmo motivo, embora limpa, a água de reuso não pode ser misturada com a água de mananciais em geral, pois propicia a reprodução de algas, e consequente consumo de oxigênio, o chamado processo de eurotrofização.
O reuso seria uma medida de saneamento ambiental. ‘‘Um litro de água residual contamina entre dez a cem litros de água potável. Quando você reusa um litro de água, você está evitando que no mínimo dez litros de água potável. Ou seja, reuso é investimento, porque você evita que pessoas sãs fiquem doentes e o custo para tratá-las será bem maior. Você torna um recurso natural que não seria utilizado em algo produtivo economicamente, que gera emprego e divisas’’, disse.
Embora não seja destinada ao consumo humano, a água de reuso tem diversas serventias, podendo ser utilizada para a agricultura, irrigação, processo industrial, lavagem de pisos, automóveis além de servir para fontes e instrumentos de embelezamento. Hoje, ao utilizar a água que sai da sua torneira para alguma dessas tarefas, o usuário está utilizando água potável, para consumo humano.
Países mais organizados nessa área estão estruturando uma segunda rede de abastecimento para oferecer água de reuso para a população utilizar nessas destinações. Cerca da metade do consumo predial corresponde a uma destinação que poderia ser dada a água de reuso. Embora pareça desperdício, a água de reuso poderia possibilitar o início de um novo costume. ‘‘Lavar as ruas, por exemplo, é um costume sanitário importante, que não é feito no Brasil, e que traz impactos importantes para a saúde pública, gerando grandes benefícios para a população’’, salientou.
Programa foi criado em 2004, em Parelhas
Mas o reuso de águas sanitárias existe no estado? Em janeiro de 2004, a governadora Wilma de Faria inaugurou, em Parelhas, o Programa Estadual de Reuso de Águas Residuárias, fruto de pesquisas empreendidas pela UFRN. Entretanto, de acordo com Manoel Lucas, nada mais foi feito após aquela primeira tentativa.
O que a universidade faz são pesquisas científicas feitas em laboratório e depois aplicadas na realidade. Nós mostramos como tratar a água, onde e como utilizá-la. Parelhas serviria como modelo para algo que pode ser implementado em todo estado. Cabe ao governo tomar novo conhecimento dessa pesquisa e expandi-lo.
Manoel Lucas afirma que o grande consumidor da água de reuso é justamente a agricultura, pois possui essa água possui grande quantidade de nutrientes, principalmente fósforo, o que favorece o crescimento vegetal. Além disso, a agricultura permite um controle sanitário mais fácil. ‘‘O solo é um grande depurador das questões macro-biológicas e físico-químicas, fazendo um processo natural de filtragem’’, disse.
Estações de tratamento adequadas, de preferência próximas a terrenos favoráveis à agricultura propiciam o plantio durante o ano inteiro. Poderia se plantar mamão, milho, mamona e girassol, por exemplo, de maneira sistemática.
Fonte: Diário de Natal
Tags: Dia Mundial da Água, Meio Ambiente