Com o CD “Sátiro”, Antonio Ronaldo alça sua meta de compositor com necessidade de mostrar, ao menos parcialmente, as canções que tem produzido e acumulado ao longo de mais de três décadas, em solo potiguar. O desafio de interpretar suas próprias canções surge à medida em que vai se tornando cada vez menos efetiva a inclusão desse trabalho nos discos dos interpretes mais cortejados de Natal, pois os potenciais candidatos a essa tarefa vêm optando por repertórios autorais nos últimos anos.
Em tempos difíceis como os atuais, onde se conjugam instabilidades e incertezas quanto a espaços de divulgação para a música potiguar, a edição de um disco com essas características não surpreende, sobretudo porque o compositor necessita apresentar – da melhor maneira possível - suas canções até mesmo para persuadir os costumeiros intérpretes, mostrando-lhes que existe uma produção efetivamente disponível para registro e divulgação. Tais ressalvas, contudo, soam redundantes num país onde é tradição o compositor gravar suas próprias músicas, sem que lhe seja cobrado nível de excelência no desempenho vocal. Isso acontece como se cumprindo um rito natural.
A escolha do repertório levou em contra principalmente equilíbrio entre o número de canções feitas em parceira e as individualmente compostas. O placar é seis a seis. Prevalecem, contudo, parcerias formadas com poetas e letristas, tais como: João Batista de Morais Neto (João da Rua), Jota Medeiros, Jarbas Martins, Iracema Macedo, Carlos Magno Fernandes e Paulo Procópio. O único parceiro músico nessa comitiva de ilustres é Manassés Campos. Este musicou um poema de Antonio Ronaldo intitulado “Tributo a Nietszche de Almeida”, editado em maio/2000. As canções são de diferentes idades, compostas desde a década de setenta até a atual.
Destaque para as participações especiais de Cida Lobo, Geraldo Carvalho e Manassés Campos, os quais têm particular afinidade com a obra de Antonio Ronaldo. Cida e Geraldo dividem o ranking dos interpretes mais recorrentes do autor. Manassés, ao seu turno, teve um papel fundamental na elaboração do disco, com sua inestimável logística e absoluta solidariedade, quiçá cumplicidade, com o projeto. Esse encontro soa à guisa de celebrar a identificação recíproca entre esses artistas, cujas trajetórias reforçam a afinidade estética e o ideal comum de ampliar os espaços de difusão da canção popular potiguar, conforme os ditames da sensibilidade que compartilham.
Segundo Antonio Ronaldo, trata-se de um disco tradicional de MPB, focado na sobrevivência da canção. Nem de longe tem o propósito de inovar as formas, os meios nem as técnicas de manifestações dessa ordem. A conexão com o universo da palavra escrita é intencional, como forma de atrair o nicho particular da canção popular para o mesmo fogo. Até aí, nada que não reforce a tradição da nossa MPB. Apenas uma confirmação desse vínculo, já que o artista em foco milita insistentemente nessa área de intersecção. Passeia por ritmos também já consagrados nesse universo de expressão: samba e xote, marcha e frevo, blues e reggae, salsa e balada. Nada que a MPB que se pratica por ai não tenha ainda suficientemente referendado.
A música de Antonio Ronaldo é instigante não porque é inovadora em sua forma, mas porque perscruta o inusitado. Tem vitalidade sobretudo porque é eclética, audaciosa, insurreta. É sinuosa, maliciosa, provocante. Tem o poder de desmoronar os castelos de certezas, com tanto ceticismo e, paradoxalmente, eleva e salva a condição humana num chamamento irresistível à esbórnia. É um eterno retorno ao ideal iluminista, com o recurso da ludicidade. Fala sério, não dá pra crer nesse mundo repleto de predadores tão inocentes e bem intencionados. Urge que a canção sobreviva para evitar o achatamento de nossas ideias.
Leia texto À propósito da Satiridade, de Antonio Ronaldo.
Dados Biográficos
Antonio Ronaldo de Sousa Ferreira nasceu em Mossoró/Rn, no dia 08 de maio de 1957 e vive em Natal desde a adolescência. Para ser mais preciso, desde o verão de 1971, época em que já brincava de compor e era vidrado no tropicalismo e na contracultura. Participou de vários espetáculos teatrais (como ator) e festivais de música. Em 1981, marcou presença na antologia Grande Ponto, do Laboratório de Criatividade (UFRN). Foi colaborador de diversos tablóides que circularam na década de 80, como Delírio Urbano e Hotel das Estrelas. Em 1980 publicou seu primeiro livro, em parceria com Adriano de Sousa, intitulado “Usura Colonial – Do Incesto Histórico entre Nós e Eles”, em edição mimeografada. Na música, seus principais intérpretes são Cida Lobo e Geraldo Carvalho. Os parceiros, alguns são poetas, outros compositores. São mais de três décadas militando nessa dupla trincheira (música e poesia) em solo potiguar. Diz que foi em função da música que passou a escrever, vindo a ligar-se ao movimento de poesia alternativa que campeava nos anos 70 (geração mimeógrafo ou marginal), quando passou a escrever seus primeiros versos, em clima de desbunde e de sufoco. A criação musical caminhou sempre pari passu com a literária, sendo esse vínculo seu principal distintivo.
Tópicos Curriculares
1978 – participa da I Cantoria da Música Nordestina – TV Globo – Recife/Pe com música “Virou Flor”; participa ainda do 1º FUMPO – Festival Universitário de música popular de Campina Grande (Universidade Regional de Campina Grande/Pb)
1979 - participa do do 2º FUMPO – Festival Universitário de música popular de Campina Grande (Universidade Regional de Campina Grande/Pb), apresentando-se em companhia do músico potiguar Cleudo Freire
1980 – publica “Usura Colonial – Do Incesto Histórico entre Nós e Eles” com Adriano de Souza – Edição Mimeo – DCE/UFRN
1981 – participa da antologia poética “Grande Ponto” – Editora Universitária – Natal/RN
1982 – publica “Matéria Plástica” (poesia) – Edição do autor
1982- tem sua música GARANTO Incluída no LP “Música Universitária”, do Projeto Memória – UFRN;
1985 - publica “Amante Ladino” (poesia) – Lumiar Edições
1994 - tem sua música TRATE- ME – Incluída no CD “Trate-me”, de Leão Neto. Música composta em parceria com o referido intérprete;
1995 – participa da antologia poética “Poesia Circular – Literatura do RN – Centro de Documentação, Pesquisa e Animação Cultural/Profinc/Cidade do Sol – Natal/Rn
1997 – tem duas músicas (BLUES DA NEBLINA e GARANTO) incluídas no CD “Decida-se”, de Cida Lobo;
1997 – participa da antologia poética “Geração Alternativa – Antilogia Poética” (Org.) Jota Medeiros – Amarela Edições – Natal/Rn
2000 – publica “Badulaques, Bombons/Stars Afins/Certas Canções Insertas” (poesia) - Timbre Editorial;
2001 – tem sua música LUGAREJOS Incluída no CD “Manhecença”, de Geraldo Carvalho;
2003 - tem duas músicas (CAMISA DE FORÇA e ORÁCULO) incluídas no CD “Simplesmente Cida Lobo”, de Cida Lobo;
2004 – publica “Jeans Avariado” (poesia) - Coleção João Nicodemos de Lima nº 116 – Edição Sebo Vermelho
2006 - tem sua música NO SEU ABRAÇO Incluída no CD “Varal do Tempo” de Manassés Campos
2006 - participa do IV FORRAÇO – Natal/Rn, com a música “Cascudo no Coco”, composta em parceria com João Barra e Aroudo JB Silva
2006 – tem sua música CASCUDO NO COCO Incluída no CD “IV Encontro Regional de Forró” – FORRAÇO, na interpretação de Elis Rosa;
2007 - participa do II MPBECO – Natal/Rn, com a música “Volte Comigo”, composta em parceria com João Barra e interpretada por Marília Lima;
2007 - participa do V FORRAÇO, com a canção O CANTO DO COLONIZADO CONTRA O ENTREGADOR, composta em parceria com João da Rua, que será interpretada por Geraldo Carvalho, na eliminatória de 22/06/2007;
2008 - participa, na concepção do projeto, seleção de textos e como compositor, do CD “Zila Mamede – O Exercício da Palavra Cantada”, uma amostra da musicalidade inserta no universo poético de Zila, a ser lançado neste mesmo evento.
Serviço
Lançamento do Cd "Sátiro", de Antonio Ronaldo
Dia 11/09 (sexta)
19h
Teatro de Cultura Popular
Entrada Gratuita