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23.03.2009
Inodora, incolor e insípida são as três características da água que são aprendidas logo nos primeiros anos da escola. No dia mundial da água, celebrado hoje, 22 de março, é importante relembrar o desafio que o Rio Grande do Norte tem de levar para toda a população esta água, pura e tratada, assim como alertar sobre o desperdício deste bem, que é essencial para a vida humana.
Segundo João Alberto Dantas, engenheiro e gerente de operações da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern), a maior dificuldade em fornecer água para todos os habitantes do estado, que é de pouco mais de três milhões (3.013.740 – IBGE/2007), está em captar recursos financeiros para a execução de obras que disponibilizem água para todos.
O engenheiro enfatiza que a companhia atende atualmente 98,5% da população do Estado, ou seja, cerca de 50 mil pessoas ainda não tem, em casa, água encanada e dependem de sistemas individuais, compostos por mananciais de superfície, como açudes e barragens, ou poços tubulares e cisternas. Além do problema de que nem toda a população do estado é favorecida com o abastecimento contínuo, existe o desperdício de água, tanto da Caern quanto da população.
Atualmente a média de desperdício de água tratada da Caern chega a 40%, ou seja, a cada 100 litros produzidos, há uma perda de 40 litros. Segundo a Caern, a empresa está dentro da média Nacional que varia de 35% a 40%. João Alberto Dantas explica que este desperdício se dá por pequenos vazamentos, desvios de água (os gatos), lavagem de filtros da própria estação de tratamento.
O gerente de operações esclarece que o combate ao desperdício é recente e que não há dados sobre o impacto financeiro disto para a companhia.
Variabilidade hídrica no RN dificulta abastecimento
Os recursos hídricos do Estado são formados por açudes, barragens, bacias hidrográficas e lençóis freáticos que necessitam de um sistema capaz de transportar água para toda a população, como as adutoras. De acordo com o mapeamento realizado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh) existem 23 adutoras das quais seis abastecem a maior parte dos norte-rio-grandenses.
São cerca de 700 mil pessoas abastecidas pelas adutoras Monsenhor Expedito, Serra de Santana, Jerônimo Rosado, Mato Grande, Médio Oeste e Sertão Central Cabugi. Uma nova adutora, a Alto Oeste, será a maior do Estado e teve a ordem de serviço autorizada na última sexta-feira pela governadora Wilma de Faria. Esta adutora irá beneficiar 207 mil pessoas.
Joana D’arc Freire de Medeiros, assessora técnica da Semrh, fala que o estado tem hoje 46 reservatórios com capacidade de armazenamento maior de cinco milhões de metros cúbicos. Somando a capacidade destes reservatórios dá cerca de 3,7 bilhões de metros cúbicos de água. Contudo, levando em consideração todos os açudes existentes, este número sobe para mais de três mil. Ela diz que se os reservatórios tivessem água todo o tempo, não haveria problema de distribuição.
No entanto a variabilidade da disponibilidade hídrica prejudica este abastecimento. “Nas épocas de seca são os reservatórios de grande porte que garantem a disponibilidade hídrica do estado”, fala a assessora. Existe uma relação entre a disponibilidade de água e o abastecimento. Joana D’arc informa que nos períodos secos existe a estrutura mas não há agua para o abastecimento. “Nosso maior problema é disponibilidade de hídrica”, diz Joana.
Estado não utiliza todo o potencial produtivo
A assessora técnica da Semarh, Joana D’arc, relata que os reservatórios são de usos múltiplos, contudo o estado priorizada o abastecimento para o uso humano. Ela relata que a carência hídrica do RN torna economicamente inviável levar água para o desenvolvimento da agricultura no Seridó, por exemplo. “O abastecimento humano ainda justifica o custo investido, mas para as outras atividades é preciso fazer uma avaliação econômica do custo beneficio. Às vezes a atividade econômica não cobre as despesas da água”, explica Joana.
Ela explica que o Vale do Açu não tem problema de disponibilidade de água, entretanto diz que se todo o potencial produtivo do Vale fosse utilizado, haveria carência de água. “Se utilizássemos as demandas potenciais teríamos conflitos de água no próprio Vale, que é a região com maior potencialidade hídrica do Estado hoje”, esclarece Joana.
As cidades do litoral têm menos problemas de abastecimento por serem abastecidas por lençóis freáticos. No estado existem cinco aquíferos subterrâneos e os poços perfurados nestas regiões tem a potencialidade de vazão que vai de cinco a 150 metros cúbicos de água por hora. Além destes mananciais o Rio Grande do Norte tem 14 bacias hidrográficas e duas faixas de escoamento difuso, que são áreas de armazenamento temporário. Ao todo, são 53.306 km2 de área de drenagem destas 16 áreas.
Joana D’arc fala que 90% do estado está localizado no semiárido e 60% está sobre o cristalino, que é rocha. Nestas áreas com clima semiárido, os rios são intermitentes, ou seja, secam no período de seca. “A nossa disponibilidade de hídrica está relacionada com capacidade de regularização dos reservatórios. Porque não há vazão com garantia”, conclui.
Para a Arsban é preciso otimizar o uso da água
“Um dos maiores desafios do século XXI em relação a agua é otimizar o seu uso”. Esta afirmação é do presidente da Arsban Urbano Medeiros Lima. Ele esclarece que a otimização significa não só combater o desperdício mas também a implementação do reuso da água. Inclusive faz uma critica à irrigação dos canteiros da cidade que é feito com água tratada da Caern. “Você fazer irrigação de canteiros públicos com água tratada da Caern não tem sentido”.
Ele fala que o reuso de água na indústria e em práticas simples realizadas pela população, como a redução no tempo de banho, são essenciais para esta otimização. Ele enfatiza que faz parte da cultura popular pensar que os recursos hídricos são infinitos e defende a promoção de campanhas publicitárias e programas que divulguem e sensibilizem a sociedade sobre a importância da economia de água. “A Caern deveria promover campanhas publicitárias de forma massiva”, relata Urbano que incentiva a criação de mecanismos eficientes da Caern para que a população denuncie canos estourados e outros vazamentos de água, a fim de evitar desperdício. “A população está querendo contribuir, mas muitas vezes se sente desestimulada. A empresa se omite”, critica o presidente da Arsban.
Urbano Medeiros fala ainda que quando se fala em água, está se falando em saneamento. “Existem quatro componentes do saneamento: água, esgoto, lixo e drenagem urbana. A desarticulação desses quatro componentes significa um grande prejuízo para a politica urbana das cidades. Não adianta fazer planejamentos pontuais. Pode até ser feito de forma setorial, mas articulado”.
Agricultores comemoram a data de hoje
Para comemorar o Dia Mundial da Água a Articulação do Semi-árido Brasileiro (ASA) realiza uma série de atividades em várias regiões do Estado: Trairi, Seridó, Médio Oeste, Potengi e Mato Grade. São palestras, romarias, seminários, caminhadas e celebrações envolvendo os agricultores familiares que atuam nas ações desenvolvidas pela ASA no Rio Grande do Norte.
O objetivo da ASA é oferecer suporte para que os agricultores familiares conquistem segurança e soberania alimentar, através do domínio das técnicas de produção agroecológica, com foco no cultivo de alimentos diversificados e saudáveis, tanto para consumo próprio, quanto para comercialização.
Uma das principais ações é a construção de cisternas para captação e armazenamento da água da chuva. De 2000 até agora, foram construídas 29.159 cisternas no Estado com o apoio da ASA, através de recursos federais e de entidades internacionais.
Mananciais de Natal estão contaminados
A assessora técnica da Semarh, Joana D’arc fala que o conflito de água se dá não apenas pela quantidade mas também pela qualidade. “A cidade de Natal hoje tem um problema seríssimo de abastecimento com relação à qualidade, devido a contaminação por nitrato”. O professor da UFRN Manoel Lucas, desenvolve estudos na área de engenharia sanitária e ambiental e fala que Gramorezinho, Pajuçara e Jiqui são as zonas que apresentam os maiores níveis de contaminação por nitrato na cidade.
Urbano Medeiros Lima, presidente da Agência Reguladora de Serviços de Saneamento Básico do Município de Natal (Arsban) é enfático ao dizer que o principal fator de contaminação da água de Natal é o esgoto. Ele explica que isso se deve a precariedade do saneamento básico, que inclui coleta e tratamento do esgoto. Na cidade, 30% dos esgotos são coletados, porém um número muito pequeno deste esgoto é tratado, cerca de 12%. “O saneamento envolve tratamento e destinação final e isso não ocorre em Natal”, relata Urbano.
O presidente da Arsban esclarece que como a cidade é construída sobre dunas a permeabilidade é grande. “Ao mesmo tempo em que é importante para infiltrar as águas da chuvas e recarregar o lençol freático, o solo é uma esponja para absorver os contaminantes”, frisa. Para evitar que o solo seja contaminado, o esgotamento sanitário deveria não apenas recolher os efluentes mas também tratá-lo.
O professor Manoel Lucas afirma que a universidade tem um programa de monitoramento da água de todo o Estado e que a radiografia das águas indica que os mananciais, de uma forma geral, estão em boa qualidade. “Em alguns pontos da cidade a água da Caern chega a ter características melhores do que a mineral, como acontece em Ponta Negra”, fala o professor que diz não haver necessidade de cozinhar ou lavar verduras com água mineral.
O subsecretário de Pesca, Antonio Alberto Cortez, da Secretaria de Estado da Agricultura, da Pecuária e da Pesca (Sape) enfatiza que os mananciais do Estado do Rio Grande do Norte sofrem contaminação não apenas pela falta de esgotamento sanitário, mas também por resíduos da atividade industrial e da agricultura.
Cortez alerta também para a prática de algumas atividades, como a própria criação de peixes, dentro dos mananciais que servem para o consumo humano, como açudes e barragens. E fala que deve haver um controle rigoroso a fim de manter os padrões de qualidade da água. Caso contrário, os problemas continuarão cada vez mais intensos.
Fonte: Tribuna do Norte
Tags: Dia Mundial da Água, Meio Ambiente